Um café tão silencioso, terminado com 'tenha um dia feliz'.
Um café sem troca de olhares, de palavras, de carinhos... um café bem quente tão frio.
Certo, vou me esforçar... só depende de mim, né? Reestabeler uma rotina: começo limpando a cozinha, organizo a geladeira... quase vazia. Vou para o quarto, arrumo a cama, dobro as roupas jogadas pelos cantos, separo a roupa suja, levo pra lavanderia... Em seguida, os banheiros... organizo tudo, troco as toalhas, levo as sujas para a lavanderia.
Acho que este foi o primeiro passo pra retomar a normalidade. Engulo seco. Normalidade, parece brincadeira. Me esforço pra continuar, preciso arrumar, organizar o exterior.
Supermercado é o próximo passo.
- Vamos, amor!? - falo pro meu querido amor.
Outro esforço tremendo. Amor... amor... amor. Acho que é isso que a mata a gente, tira pedaço, despedaça...
Meu marido me deixa próximo ao supermercado e vai para o trabalho. Um beijo de despedida. Engulo seco. Prendo as lágrimas dentro de mim.
Na rua sozinha olho tudo ao meu redor. Normalidade. As árvores na praça à minha frente, as flores, um casal empurrando um carrinho de bebê. Engulo seco, suspiro... um suspiro longo e profundo e seguro as lágrimas. Continuo andando e olhando o mundo que continua na sua normalidade.
Um mendigo deitado num banco da praça. Normalidade!? É este o mundo em que vivo. Em que seres humanos passando a noite ao relento é considerado normal.
Começo a duvidar do que seja normalidade.
Sento num banco e me deixo ficar, meus olhos viajam até o outro lado da praça... os balanços, escorregador, a caixa de areia, as gangorras descoloridos pelo sol. O parquinho precisa de mais cuidados.
Eu e o banco da praça. O mendigo e o banco da praça. Quem é o mais derrotado? Que é o mais infeliz? Quem chegou ao extremo do sofrimento?
'Cada um ao seu modo, cada um com sua dor é o mais infeliz', penso eu. Pra cada um seu sofrimento é o pior.
Levanto e sigo ao supermercado. Preciso retomar meu dia a dia. Outro passo: salão de beleza. O interior está estraçalhado, mas o exterior não precisa ficar assim.
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