Não sei quanto tempo passou... o Sol mudou de lugar... o vento já era outro... quando decidi que tinha de voltar.
Levantei lentamente e me dirigi pra casa. Meu corpo doía, minha cabeça latejava, meus pés estavam formigados... meu estômago tinha espasmos.... na minha boca um gosto amargo... um gosto metálico, minha visão turva... será que estou precisando de óculos?
Mas eu queria a dor, queria mais dor ainda, queria no meu corpo toda a dor do mundo... pra suplantar um pouquinho a dor do meu coração.
Voltei com um passo atrás do outro. Uma senhora baixinha e gorducha com um chapéu engraçado na cabeça passou por mim... conversando, conversando com seu cachorrinho. Que cachorrinho feio e ela tentou enfeitá-lo com lacinhos coloridos.
Quanto tempo não acho algo engraçado, nem ridículo. E aquela mulher tagarelando com seu cachorro era extremamente ridículo. Ela seguia sua vida sem prblemas, sem dor, pensei na minha dor. Mas logo me censurei. E daí se ela está feliz? E daí se a vida dela se resume àquele cachorrinho horroroso, sem pelos e com lacinhos? A vida é dela e ela pode gastá-la com quem quiser... como quiser.
Acho que estou me tornando uma pessoa amarga. Não posso, tenho de controlar esse tipo de pensamento O mundo, ou pelo menos o mundo que não se envolveu no roubo do meu filhinho, não tem culpa da minha tristeza, da minha dor, da minha desesperança no mundo.
Quando já estava bem próxima de casa vi um movimento de carros, pessoas na frente dela. Quando cheguei ao portão, meu marido correu na minha direção.
- Onde você estava? - gritou ele.
- Eu... eu... saí procurar nosso filho... - falei num fio de voz.
Quando vi a nuvem de dor nos olhos dele me dei conta do que eu havia feito. Não bastava a dor pelo nosso bebê... eu havia, com meu sumiço, causado mais dor ao segundo homem da minha vida e que tanto amo.
Abracei-o e chorei... mais uma vez... só que agora foi um choro não escondido, foi o choro que estava engasgado desde o sequestro de nosso filho... E meu marido chorou, também.
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