Juntei as laranjas, voltei pra perto de meu marido, entreguei as laranjas pra que eles as colocasse novamente na sacola e olhei na direção dos balões coloridos, do palhaço e de meu filho.
Nada... nada do que eu espera encontrar estava lá. Era tão certo que a figurinha de meu bebê apareceria diante de meus olhos quando eu olhasse na direção em que ele tinha corrido. Mas o que meus olhos viram foi nada.
Você já teve tal sensação? A de olhar para um lugar e não ver o que era certo que seria visto?
Sinceramente espero que você nunca tenha tido essa experiência.
Num primeiro momento, claro, não me dei conta... olhei em outras direções... em todas as outras direções. Corri para onde meu filho deveria estar... ele de-ve-ri-a estar lá. Mas não estava.
Olhei novamente. Quem sabe a multidão de pessoas tivesse engolido meu filho, empurrado pra algum canto, sei lá... ele tinha de estar naquele lugar. Lá era o lugar dele.
Mas não o vi.
Chamei seu nome... chamei... mais alto, mais alto... gritei. Nada.
Bem, o que aconteceu depois disso, vem aos turbilhões à minha mente. Não consigo concatenar exatamente a sequência correta dos acontecimentos. Corri por toda a estação, olhei para todos os lados, pra cima, pra baixo... entrei desesperada em cada ônibus estacionado com as portas abertas...
procurei debaixo dos bancos... 'ele rolou... eu sei ele apenas rolou para um lugar onde não consigo ver'... ele tinha de estar em algum lugar.
Meu marido... não consegui olhar nos olhos dele, simplesmente não consegui. Não queria ver espelhado no seu olhar o meu desespero... o desepero dele. Acho que ele também estava deesperado. Não, nunca perguntei.
Corri como corre um louco. Corri como se de correr dependesse toda a minha vida. Corri como se corresse contra o tempo. Corri como se pudesse voltar no tempo. Corri... e gritei. Desesperadamente gritei o nome de meu filho.
Uma semana depois minha garganta ainda doía por causa dos meus gritos... que não conseguiram alcançar meu filho. Ou conseguiram, e ele simplesmente foi impedido de responder?
Sinceramente, espero que a maldade de quem o levou não tenha havido mais esse requinte de crueldade. Mas, sim... tenho milhares de pesadelos exatamente assim: meu filho gritando da janela de qualquer lugar... 'mamãe... mamãe'; não ouço sua voz; apenas vejo o movimento dos lábios e as lágrimas escorrendo pelo rostinho dele - como se tivesse consciência de que era um adeus... 'adeus mamãe'.
"Não bebê... não é um adeus", queria poder dizer, queria poder acreditar, queria materializar o significado dessas palavras.
Queria, não... quero.
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