A garoa caía desde manhã. Mal se enxergavam as casas pela nossa rua. Uma rua onde tudo era tão conhecido... me parecia, agora, tudo tão estranho. Um outro mundo.
Quando chegamos a nossa casa, um movimento de gente: meus pais, meus sogros, alguns amigos e vizinhos tiravam caixas e mais caixas de uma Van. Eram folhetos com a fotografia de meu filho... lindo embaixo das palavras DESAPARECIDO.
Olhei pras caixas, pros folhetos e pro meu filho. Fiquei segurando na mão um folheto, olhando fixamente bem dentro dos olhos dele. Lembrei do dia em que tínhamos tirado aquela foto... No parquinho do bairro. Suspirei profundamente.
Que dor.... Meu Deus que dor! Não fiz nada de tão errado que pudesse merecer tamanha dor. Por que Deus me impõe tal provação?
Acho que foi nesse exato momento que Deus morreu pra mim... Sabe aquela figura de um Deus bondoso, que ama suas criaturas... eu não conseguia mais enxergar isso.
Nunca fui muito ligada a essas coisa de Deus. Vivia minha vida e pronto. Não fazia o mal pra ninguém, sequer desejava o mal... acho que Deus esperava mais de mim, esperava que eu saísse por aí ajudando as pessoas, proclamando crer nEle, acho que é isso que faltou. Paciência... agora é melhor mesmo que Deus não exista pra mim... é mais fácil aceitar que terei de viver dia após dia tristíssima e tensa como a corda de um arco de flecha...
Novamente o risco de um sorriso cruzou meu rosto e agradeci àquelas pessoas o que estavam fazendo por mim, meu marido, meu filho...
O que lembro bem daquele dia é que bebi água, muita água....e nos dias seguintes também.
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